E esse tal de relacionamento abusivo?

Hoje, principalmente entre os jovens e nas mídias sociais, está em voga nomear muitos aspectos das relações humanas e sua sexualidade. Um dos termos que mais se lê, ouve e teoriza sobre é o de Relacionamento Abusivo. Nos consultórios, muitos sujeitos se queixam de viverem ou terem vivido algo que enquadrariam como tal.

Tendo isso em vista, Luiza Pion escreveu um texto sobre a experiência dela, que foi publicado no site Lado M, em Agosto de 2016.

O texto foi tão lido e comentado, que pediram a ela para escrever um novo sobre como sair de um relacionamento abusivo, publicado em Setembro de 2016. Foi então que ela sugeriu que eu a ajudasse, como profissional nesta teorização.

Copio aqui, minha colaboração:

“Existem aspectos biológicos, psicológicos e sociais envolvidos em relações humanas. Não é diferente para relacionamentos abusivos.

Quando uma pessoa se apaixona, há áreas do cérebro relacionadas com a recompensa e a motivação que se ativam. Além disso, o objeto de amor parece perfeitos, os pensamentos negativos e o julgamento são diminuídos. Pode ser estimulada, inclusive, a produção da dopamina, neurotransmissor responsável por uma sensação de prazer intensa e pela dependência, pelo vício.

Em nossa sociedade, os papeis de gênero ainda são bastante rígidos. É mais comum um relacionamento abusivo ter como abusador o homem. O conceito de masculinidade atual ainda é ligado a dominação, honra e agressão. Ou seja, há normas socioculturais que outorgam ao homem dominação sobre o comportamento feminino.

As mulheres são educadas, desde pequenas, a serem mais contidas, não demonstrarem agressividade. Muitas são ensinadas que aceitar a violência pode resolver o conflito e, procurar ajuda, além de vergonhoso, estimularia a briga.

Apesar de todos esses fatores que o favorecem, para que se saia de um relacionamento abusivo, primeiro é importante conseguir reconhece-lo. São quatro tipos de violência mais comuns praticados pelos abusadores:

1) A violência física, na qual um indivíduo tenta causar dano, interno ou externo, por meio de força física.

2) A violência psicológica, que envolve ações e omissões que causam ou visam causar dano à auto-estima, identidade ou desenvolvimento da pessoa.

3) A negligência, que é omissão de responsabilidade de uma pessoa em relação a outra, sobretudo quando se precisa de ajuda.

4) A violência sexual, na qual uma pessoa em situação de poder obrigando outra a realizar práticas sexuais, a partir de força física, armas, drogas ou influência psicológica.

Há fatores na história da pessoa que favorecem a inserção em uma relação abusiva. Ter um modelo familiar ou parental violento; ter sofrido maus tratos, negligência, rejeição ou abuso sexual na infância; casar ou se relacionar como fuga da situação familiar de origem, de forma que o parceiro se torna ainda mais idealizado; ter sintomas depressivos, autodestrutivos; e não ter uma rede de apoio eficaz de moradia, amigos, saúde, atendimento policial e justiça.

Uma vez tendo percebido a violência, a pessoa precisa de força para conseguir sair dessa situação. Em muitos casos, a mulher se sente responsável pelo comportamento agressivo do companheiro. Além disso, como são oprimidas, temem a represália.

A situação tende a se tornar mais grave quando a pessoa depende financeiramente do par ou há filhos com quem se preocupar, já que a dependência deixa de ser apenas emocional. Muitas vezes, os amigos e família enxergam a situação e não suportam o sofrimento que os causa. Assim, a pessoa perde esta rede de apoio e só resta a ela a esperança de que o parceiro mude e, no futuro, passe a respeitá-la.

No entanto, nesse jogo de poder, o abusador tem muitas vantagens, e não há motivos para mudar espontaneamente. Portanto, a decisão final é da pessoa que sofre a violência, principal prejudicada.

Ao enxergar tal situação, o que se pode fazer é apoiar, conscientizar com empatia, ter paciência e indicar ajuda profissional. Há inclusive casos nos quais as pessoas repetem este modelo de relação ao longo de toda uma vida, caso não tenham tratamento psicológico adequado.”

 

 

Referências Bibliográficas:

DAY, Vivian Perez et al (2003). Violência doméstica e suas diferentes manifestações. Revista de Psiquiatria, 25 (suplemento 1): 9-21 http://www.scielo.br/pdf/rprs/v25s1/a03v25s1 Acesso em Agosto de 2016.

BREWER, Gayle (2016). Que es el amor? Esto es lo que nos dice la ciencia – The Conversation em El país. Julho de 2016. http://elpais.com/elpais/2016/07/14/ciencia/1468517563_508117.html Acesso em Agosto de 2016.

SAAVEDRA, Rosa Maria Melim (2011). Prevenir antes de remediar: prevenção da violência nos relacionamentos íntimos juvenis. Tese de doutorado em Psicologia da Justiça. Em: http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/14248 Acesso em Agosto de 2016.

 

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